POR Rudá Ricci
No dia 1 de abril de 1964, o Brasil mergulhava numa ditadura. Este texto é dedicado a explicar em que aquela ditadura se diferenciaria da que Bolsonaro tentou implantar.
O bolsonarismo é fascista. A ditadura militar de 64 era autoritária. Qual a diferença? Autoritarismo não mobiliza socialmente e tolera certa competição política tutelada.
A partir de 1964, ninguém podia sair às ruas em grupos de mais de três pessoas. Se saísse, logo aparecia um meganha ditando o conhecido “Circulando!”. Isso, se fosse um policial pacato.
Na capital Paulista, era comum uma daquelas “baratinhas” da polícia subir na calçada e dela saírem policiais armados jogando o grupo de transeuntes nas paredes.
Era comum exigirem carteira de trabalho. Se não tivessem, davam um “passeio” pela cidade.
Nas salas de aula nas universidades era comum um policial “disfarçado” de polícia que gravava as aulas e intimidava. O objetivo era calar e desmobilizar.
Ditadura é isso: desmobilização. E violência. Dias atrás, uma manifestação liderada por Boulos se concentrou no antigo DOI Codi, na rua Tutoia. Lugar famoso.
Muitas histórias de tortura na rua Tutoia e tiros em carros que não diminuíam a velocidade ao passar pelo DOI Codi. Se tinha pressa, levava chumbo. Simples assim.
Ditadura desmobiliza e tutela uma disfarçada disputa política. Durante a ditadura militar, havia MDB e ARENA. Diziam que um era o partido do SIM e outro do SIM, SENHOR.
Nas cidades do interior, até 1974, ser do MDB não pegava bem. Muitos diziam, à boca pequena, que era partido de comunistas e gente fracassada. A oposição, então, criava uma chapa especial da Arena, a Arena 2.
A partir de 1974, o MDB passou a vencer eleições e não parou mais. A ditadura tentou frear, criou leis para manter seu domínio – como a criou o “senador biônico -, mas não deu.
A diferença com o que Bolsonaro iria implantar é clara porque o bolsonarismo é fascista. Fascismo mobiliza e detesta competição política.
Aliás, lideranças fascistas ascendem ao poder pelas vias legais, como ocorreu com Mussolini. No poder, fazem a lambança.
O líder fascista é carismático e inflama a sociedade. É demagogo e diz ser do povo e que no seu governo, os coitados, os não-elite e os lascados irão à forra.
Vingança é a ideia que fascista cultua. Com eles no poder, chega a hora dos ressentidos. Toda mágoa e fracasso passa a ter lugar no camarote do baile brega.
A mobilização social é contra os poderosos, os bem-sucedidos e abastados. Contra a esquerda, os homossexuais, artistas e intelectuais.
A intolerância campeia e, com ela, a ameaça. Fascista ameaça usar a força e prepara o uso concreto. Começa com acampamento e termina com 8 de janeiro.
Ditador usa óculos escuro. Fascista faz motociata. Fascista usa Hugo Boss. Ditador usa cavalo.
Mas, tem algo em comum? Sim, a rejeição da democracia. Ambos manipulam as leis, fazem discursos tortuosos para impor o que querem.
Uns são sisudos e outros são exuberantes. Entretanto, ambos fingem que são honestos, mas não são. Ambos, fingem que são povão, mas não são.
Ambos conspiram contra a nação e a paz. Ambos se apoderam do dinheiro público para perseguir e ameaçar. Ambos são um câncer político e social.
Em 1964, no dia da mentira, se instalou uma ditadura no Brasil. Pegava mal inaugurar uma ditadura nesse dia. Não tiveram dúvida: mudaram a data para 31 de março.
É típico de ditadura: se a cor branca não lhes agrada, pinta-se tudo de marrom. O importante não é à verdade, mas a versão mais conveniente. A fake news.